{"id":25,"date":"2007-10-25T17:24:17","date_gmt":"2007-10-25T17:24:17","guid":{"rendered":"http:\/\/umjurista.aovento.com\/?page_id=25"},"modified":"2007-10-25T17:24:17","modified_gmt":"2007-10-25T17:24:17","slug":"%c2%aberos%c2%bb-e-%c2%abthanatos%c2%bb-o-fundamento-de-uma-etica-possivel","status":"publish","type":"page","link":"https:\/\/umjurista.aovento.com\/?page_id=25","title":{"rendered":"\u00abEros\u00bb e \u00abThanatos\u00bb: o fundamento de uma \u00c9tica poss\u00edvel"},"content":{"rendered":"<p><strong><span style=\"font-size: 14pt\">\u00a0<\/p>\n<p><\/span><\/strong><strong><span style=\"font-size: 14pt\"><font face=\"Times New Roman\">\u00a0<\/font><\/p>\n<p><\/span><\/strong><\/p>\n<p style=\"margin: 0cm 0cm 0pt; text-indent: 30pt; text-align: justify\" class=\"MsoNormal\"><font size=\"3\" face=\"Times New Roman\">Uma das ambival\u00eancias detectadas por SIGMUND FREUD no ser humano, foi<span>\u00a0 <\/span>a que, a partir da chamada \u00abviragem de 1 920\u00bb, ele chamou a oposi\u00e7\u00e3o entre <strong>\u00abEros\u00bb<\/strong> (<strong>puls\u00e3o de vida<\/strong>) e <strong>\u00abThanatos\u00bb<\/strong> (<strong>puls\u00e3o de morte<\/strong>): cfr. <em>Malaise dans la civilisation<\/em>, Viena, 1 929, na <em>Revue<\/em> <em>fran\u00e7aise de psychanalise<\/em>, T. VIII, n\u00ba. 4, 1 934, p. 692.<\/font><\/p>\n<p style=\"margin: 0cm 0cm 0pt; text-indent: 30pt; text-align: justify\" class=\"MsoNormal\"><font size=\"3\" face=\"Times New Roman\">A tal ponto \u00e9 importante essa dualidade e oposi\u00e7\u00e3o, que ela oferece, a nosso ver, o fundamento de uma \u00c9tica poss\u00edvel.<\/font><\/p>\n<p style=\"margin: 0cm 0cm 0pt; text-indent: 30pt; text-align: justify\" class=\"MsoNormal\"><font size=\"3\" face=\"Times New Roman\">Assim:<\/font><\/p>\n<p><strong><em><font size=\"3\" face=\"Times New Roman\">\u00a0<\/font><\/p>\n<p><\/em><\/strong><\/p>\n<p style=\"margin: 0cm 0cm 0pt; text-indent: 30pt; text-align: justify\" class=\"MsoNormal\"><font size=\"3\"><font face=\"Times New Roman\"><strong><em>a) &#8211; <\/em><\/strong><span>\u00a0<\/span>O <strong>\u00abMal\u00bb<\/strong>, no homem, \u00e9 o que FREUD chamou a <strong>\u00abpuls\u00e3o de morte\u00bb<\/strong> (<strong><em>\u00abThanatos\u00bb<\/em><\/strong>): a puls\u00e3o regressiva e destruidora que, tendendo a reduzir a mat\u00e9ria viva \u00e0 sua condi\u00e7\u00e3o primitiva da mat\u00e9ria inerte e inorg\u00e2nica, se pode traduzir, visivelmente, tanto em regress\u00e3o psicol\u00f3gica, em autopuni\u00e7\u00e3o, em masoquismo, em excessiva auto-censura, em radical negatividade (e no consequente niilismo), em auto-deprecia\u00e7\u00e3o, em desagrega\u00e7\u00e3o ps\u00edquica e divis\u00e3o, bem como, no limite, em suic\u00eddio; como tamb\u00e9m, em agressividade externa, hostilidade, \u00f3dio, conflito, antissocialidade activa, sadismo, viol\u00eancia, destrui\u00e7\u00e3o, assass\u00ednio e, porventura, em guerras. A <strong>\u00abpuls\u00e3o de morte\u00bb<\/strong> \u00e9 \u00ab\u2026 uma compuls\u00e3o inerente, na vida org\u00e2nica, para recuperar um anterior estado de coisas que a entidade viva fora obrigada a abandonar, sob a press\u00e3o de perturbadoras for\u00e7as externas\u00bb, uma esp\u00e9cie de \u00abelasticidade org\u00e2nica\u00bb ou \u00abin\u00e9rcia inerente \u00e0 vida org\u00e2nica\u00bb, nos termos do pr\u00f3prio FREUD, o qual, segundo a interpreta\u00e7\u00e3o de HERBERT MARCUSE, teria, deste modo, enfatizado, ali\u00e1s, a natureza comum das duas puls\u00f5es ou instintos b\u00e1sicos, i. \u00e9, \u00ab\u2026 a descoberta da fundamental ted\u00eancia <em>\u201cregressiva\u201d<\/em> ou <em>\u201cconservadora\u201d<\/em> em toda a vida instintiva\u00bb: cfr. <em>Eros e Civiliza\u00e7\u00e3o<\/em>, 3\u00aa. Edi\u00e7\u00e3o, Rio de Janeiro, Zahar Editores, 1 968, p\u00e1g. 42 e seguintes.<\/font><\/font><\/p>\n<p style=\"margin: 0cm 0cm 0pt; text-indent: 30pt; text-align: justify\" class=\"MsoNormal\"><font size=\"3\" face=\"Times New Roman\">O <strong>\u00abMal\u00bb<\/strong>, neste sentido, est\u00e1 sempre potencialmente dentro do homem (a nossa intr\u00ednseca \u00abviol\u00eancia fundamental\u00bb) e, sob o efeito de certas circunst\u00e2ncias e condicionalis-mos favor\u00e1veis, ou em certas situa\u00e7\u00f5es sociais ou da vida, pode sempre \u00abemergir\u00bb e manifestar-se, tanto internamente, como externamente. E embora se possa legitimamente distinguir entre uma <em>\u00abagressividade benigna\u00bb<\/em> (que se encontra ao servi\u00e7o e na defesa da vida) e uma <em>\u00abagressividade maligna\u00bb<\/em> (que \u00e9 contr\u00e1ria \u00e0 vida e que prejudica, n\u00e3o s\u00f3 quem ou o que \u00e9 agredido, como tamb\u00e9m o pr\u00f3prio agressor) \u2013 veja-se ERICH FROMM, explicado por NICOLA ABBAGNANO, em <em>Nomes e temas da filosofia contempor\u00e2nea<\/em>, Publica\u00e7\u00f5es Dom Quixote, Lisboa, 1 990, p\u00e1gs. 101-102 -, o facto \u00e9 que a segunda encontra manifesta\u00e7\u00f5es imponentes em fen\u00f3menos tanto <em>espont\u00e2neos<\/em>, como a destrutividade vindicativa e a destrutividade est\u00e1tica (orgias, droga, puro exerc\u00edcio da crueldade, etc.), como em fen\u00f3menos <em>caracteriais<\/em>, como o sadismo e o masoquismo, sendo a sua express\u00e3o mais alta a <em>necrofilia<\/em>, como paix\u00e3o por tudo o que \u00e9 morto, podre ou doente, ou como interesse virado para tudo o que \u00e9 mec\u00e2nico por oposi\u00e7\u00e3o a tudo o que \u00e9 vivo.<\/font><\/p>\n<p style=\"margin: 0cm 0cm 0pt; text-indent: 30pt; text-align: justify\" class=\"MsoNormal\"><font size=\"3\" face=\"Times New Roman\">Diga-se ainda que, o <strong>\u00abMal\u00bb<\/strong> \u00e9 tamb\u00e9m o <strong><em>\u00abniilismo\u00bb<\/em><\/strong>, que NIETZSCHE detectou, p\u00f4s em evid\u00eancia e assumiu, como resultado da <em>\u00abvontade de poder\u00bb<\/em> radicalizada, inscrita no antropocentrismo moderno-ocidental, e que n\u00e3o passa, afinal, de mais uma manifesta\u00e7\u00e3o da <strong>\u00abpuls\u00e3o de morte\u00bb<\/strong>, hoje manifesta na destrui\u00e7\u00e3o levada a cabo pela rela\u00e7\u00e3o puramente instrumental que a <em>\u00abteconologia\u00bb<\/em> tem com a Terra (<em>Gaia<\/em>) e com os seus seres viventes, sejam naturais ou culturais.<\/font><\/p>\n<p><font size=\"3\" face=\"Times New Roman\">\u00a0<\/font><\/p>\n<p style=\"margin: 0cm 0cm 0pt; text-indent: 30pt; text-align: justify\" class=\"MsoNormal\"><font size=\"3\"><font face=\"Times New Roman\"><strong><em>b) \u2013<\/em><\/strong> O <strong>\u00abBem\u00bb<\/strong>, no homem, \u00e9 o que o fundador da Psican\u00e1lise chamou a <strong>\u00abpuls\u00e3o de<\/strong> <strong>vida\u00bb<\/strong> (<strong><em>\u00abEros\u00bb<\/em><\/strong>, que tamb\u00e9m se pode substancializar em <strong><em>\u00ab\u00c1gape\u00bb<\/em><\/strong>, sendo este \u00faltimo o amor como \u00abimpulso de finalidade inibida\u00bb: afecto, amizade ou estima, amor fraternal, amor entre pais e filhos, amor espiritual e amor a Deus, para os crentes, amor como generosidade e amor e caridade crist\u00e3os, etc. \u2013 sendo que todo o <strong><em>\u00ab\u00c1gape\u00bb<\/em><\/strong> \u00e9 <strong><em>\u00abEros\u00bb<\/em><\/strong>, mas nem todo o <strong><em>\u00abEros\u00bb<\/em><\/strong> \u00e9 <strong><em>\u00ab\u00c1gape\u00bb<\/em><\/strong>): a qual \u00e9 uma tend\u00eancia que conserva, renova e perpetua a mat\u00e9ria viva, a complexifica, a agrega em unidades cada vez maiores e \u00e9 respons\u00e1vel pela auto-estima, pelo amor-pr\u00f3prio e pelo sentimento de dignidade pr\u00f3pria, pela integridade ps\u00edquica e moral pr\u00f3prias, pelo amor e afectividade sexuais, pela fraternidade e bondade humanas e por tudo o que nos liga autenticamente aos outros, bem como por tudo o que, no homem, \u00e9 reparador, reconstituinte, restaurador, renovador, securizante, construtivo e elevado, estando por isso tendencialmente tamb\u00e9m na base da din\u00e2mica construtora e da criatividade da pr\u00f3pria Cultura. <strong><em>\u00abEros\u00bb<\/em><\/strong> \u00e9, afinal, como o disse HERBERT MARCUSE, no seu tempo, a <strong>\u00abess\u00eancia de ser\u00bb<\/strong> (como positividade), sendo todavia que os instintos vitais e libidinais \u00ab\u2026 s\u00e3o conservadores no mesmo sentido dos demais instintos, na medida em que trazem de volta os estados primitivos da subst\u00e2ncia viva\u00bb, embora sejam conservadores \u00ab\u2026 num grau mais elevado\u00bb: FREUD, citado por este \u00faltimo autor.<\/font><\/font><\/p>\n<p><font size=\"3\" face=\"Times New Roman\">\u00a0<\/font><\/p>\n<p style=\"margin: 0cm 0cm 0pt; text-indent: 30pt; text-align: justify\" class=\"MsoNormal\"><font size=\"3\"><font face=\"Times New Roman\"><strong><em>c) \u2013<\/em><\/strong> Deste ponto de vista, \u00e9 <strong><em>\u00ab\u00c9tico\u00bb<\/em><\/strong> tudo o que contribui para a <em>preserva\u00e7\u00e3o, a<\/em> <em>conserva\u00e7\u00e3o, a renova\u00e7\u00e3o e a perpetua\u00e7\u00e3o da Vida e da qualidade dessa Vida e a<\/em> <em>sobreviv\u00eancia e a prosperidade da esp\u00e9cie humana e de todos os seres vivos do Planeta<\/em> (numa vital \u00abestrat\u00e9gia da sobreviv\u00eancia alargada\u00bb: BOAVENTURA DE SOUSA SANTOS).<\/font><\/font><\/p>\n<p style=\"margin: 0cm 0cm 0pt; text-indent: 30pt; text-align: justify\" class=\"MsoNormal\"><font size=\"3\"><font face=\"Times New Roman\">Como o diz ainda o economista PEDRO ARROJA (Cfr. <em>Catal\u00e1xia \u2013 Cr\u00f3nicas de<\/em> <em>Economia Pol\u00edtica<\/em>, Vida Econ\u00f3mica, Porto, 1 993): \u00abO car\u00e1cter <em>\u00e9tico <\/em>de um certo comportamento s\u00f3 lhe \u00e9 conferido se, adoptando-o como princ\u00edpio, <em>ele contribui a prazo para<\/em> <em>o bem-estar da esp\u00e9cie humana\u00bb<\/em>, ou seja, tendo como ponto de partida poss\u00edvel o de \u00ab\u2026 considerar como <em>princ\u00edpio \u00e9tico<\/em> todo o princ\u00edpio de comportamento <em>que contribui para a<\/em> <em>sobreviv\u00eancia e a prosperidade da esp\u00e9cie humana\u00bb.<\/em><\/font><\/font><\/p>\n<p><font size=\"3\"><font face=\"Times New Roman\">E tamb\u00e9m da <strong>\u00abVida\u00bb<\/strong> em geral, sobretudo hoje, na nossa \u00ab\u00e9poca ecol\u00f3gica\u00bb em que vivemos: <em>tudo o que serve, conserva, renova e perpetua a Vida e a qualidade e dignidade<\/em> <em>dessa Vida \u00e9 <strong>\u00abBem\u00bb<\/strong><\/em> e, como tal, <strong><em>\u00ab\u00c9tico\u00bb.<\/em><\/strong><\/font><\/font><strong><em><font size=\"3\" face=\"Times New Roman\">\u00a0<\/font><\/p>\n<p><\/em><\/strong><font size=\"3\" face=\"Times New Roman\">\u00a0<\/font><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>\u00a0 \u00a0 Uma das ambival\u00eancias detectadas por SIGMUND FREUD no ser humano, foi\u00a0 a que, a partir da chamada \u00abviragem de 1 920\u00bb, ele chamou a oposi\u00e7\u00e3o entre \u00abEros\u00bb (puls\u00e3o de vida) e \u00abThanatos\u00bb (puls\u00e3o de morte): cfr. Malaise dans la civilisation, Viena, 1 929, na Revue fran\u00e7aise de psychanalise, T. VIII, n\u00ba. 4, 1 [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":0,"parent":0,"menu_order":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","template":"","meta":{"footnotes":""},"class_list":["post-25","page","type-page","status-publish","hentry"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/umjurista.aovento.com\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/pages\/25","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/umjurista.aovento.com\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/pages"}],"about":[{"href":"https:\/\/umjurista.aovento.com\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/types\/page"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/umjurista.aovento.com\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/umjurista.aovento.com\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcomments&post=25"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/umjurista.aovento.com\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/pages\/25\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/umjurista.aovento.com\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fmedia&parent=25"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}