{"id":19,"date":"2007-08-26T08:54:30","date_gmt":"2007-08-26T08:54:30","guid":{"rendered":"http:\/\/umjurista.aovento.com\/?p=19"},"modified":"2025-12-03T10:14:41","modified_gmt":"2025-12-03T10:14:41","slug":"um-optimismo-critico-realista-e-moderado","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/umjurista.aovento.com\/?p=19","title":{"rendered":"Um optimismo cr\u00edtico, realista e moderado."},"content":{"rendered":"<p align=\"justify\">Em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 \u00abnatureza humana comum e universal\u00bb, entendida como uma \u00abconstitui\u00e7\u00e3o ontol\u00f3gico-fundamental\u00bb do ser humano (MARTIN HEIDEGGER) \u2013 e bem assim, em rela\u00e7\u00e3o tamb\u00e9m ao \u00abmundo\u00bb em que o homem existe e vive, pois que uma certa \u00abauto-compreens\u00e3o\u00bb n\u00e3o est\u00e1 em absoluto desligada de uma certa \u00abpr\u00e9-compreens\u00e3o\u00bb do pr\u00f3prio \u00abmundo\u00bb, como o seu \u00abhorizonte\u00bb, sendo este predominantemente um \u00abmundo social ou civilizacional\u00bb -, pode ter-se uma \u00abatitude fundamental\u00bb, que poder\u00e1 oscilar entre os extremos de um optimismo ou de um pessimismo \u00ababsolutos\u00bb, com as suas grada\u00e7\u00f5es interm\u00e9dias de um optimismo ou de um pessimismo \u00abrelativos\u00bb.<br \/>\nContra o \u00abpessimismo desiludido\u00bb de certa Direita (para a qual o homem seria \u00abnaturalmente mau\u00bb e incorrigivelmente \u00abimperfect\u00edvel\u00bb); e contra tamb\u00e9m o \u00aboptimismo ing\u00e9nuo, inflaccionado e grandioso\u00bb (e fortemente dogm\u00e1tico) de certa Esquerda e da \u00abintelligentzia\u00bb dita \u00abprogressista\u00bb &#8211; para quem o homem seria \u00aboriginaria e naturalmente bom\u00bb, puro, soci\u00e1vel (e s\u00f3 soci\u00e1vel\u2026), fraterno, ilimitadamente perfect\u00edvel, bem como tamb\u00e9m a sociedade, que se poderia manipular livremente no sentido de tamb\u00e9m uma ilimitada perfectibilidade ideal (ROUSSEAU e seus seguidores) \u2013 n\u00f3s temos defendido um fundado \u00aboptimismo cr\u00edtico, realista e moderado\u00bb, no sentido do \u00abrealismo cr\u00edtico\u00bb popperiano, mas de algum modo tamb\u00e9m correspondente ao \u00aboptimismo relativo\u00bb do realismo crist\u00e3o, em rela\u00e7\u00e3o ao ser humano e \u00e0 sociedade.<br \/>\nPor seu lado, com alguma coincid\u00eancia com esta nossa \u00faltima \u00abatitude fundamental\u00bb, EMMANUEL MOUNIER ter\u00e1 defendido, no seu tempo e circunst\u00e2ncia, um \u00aboptimismo tr\u00e1gico\u00bb.<br \/>\nQuanto a n\u00f3s, do lado \u00abrealista e cr\u00edtico\u00bb do nosso \u00aboptimismo relativo\u00bb, retiramos o que o pol\u00edtico do P.S.D., Dr. PACHECO PEREIRA, h\u00e1 algum tempo, num programa radiof\u00f3nico semanal da T.S.F., dizia ser o seu \u00abpessimismo da intelig\u00eancia\u00bb. Com efeito, ao optimismo euf\u00f3rico e inflacionado da Esquerda pol\u00edtica, ele contrapunha um \u00abpessimismo da intelig\u00eancia\u00bb e um \u00aboptimismo da vontade\u00bb. N\u00f3s preferir\u00edamos dizer, talvez, um \u00abrealismo da intelig\u00eancia\u00bb. Por um lado, n\u00e3o  podemos desconhecer a \u00abrealidade\u00bb (pela intelig\u00eancia); mas por outro lado, n\u00e3o podemos deixar de tentar realizar (pela vontade) os \u00abvalores ideais\u00bb e os \u00abimperativos \u00e9ticos\u00bb que se apresentam \u00e0 nossa consci\u00eancia moral.<br \/>\nNa verdade, contra o optimismo filos\u00f3fico absoluto de um LEIBNIZ, de um ESPINOZA, de um MALEBRANCHE e sobretudo do positivismo de um HEGEL, n\u00f3s n\u00e3o iludimos a realidade existente do \u00abmal\u00bb no mundo e no homem e as suas limita\u00e7\u00f5es e imperfei\u00e7\u00f5es, embora suscept\u00edveis de cont\u00ednuo aperfei\u00e7oamento pelo esfor\u00e7o humano.<br \/>\nPodemos, decerto, ter uma \u00abpresun\u00e7\u00e3o\u00bb apenas \u00abrelativa\u00bb da \u00abbondade natural\u00bb do ser humano e at\u00e9 da sua Liberdade; mas s\u00e3o tais e t\u00e3o abundantes as evid\u00eancias do \u00abMal\u00bb de que ele tamb\u00e9m \u00e9 capaz, da maldade, da perversidade, do ego\u00edsmo e do egocentrismo, da inveja e da cobi\u00e7a, do \u00f3dio, da corrup\u00e7\u00e3o e das velhacarias a que se entrega t\u00e3o facilmente, que n\u00e3o podemos subscrever, tranquilamente, uma qualquer \u00abteoria da pessoa humana\u00bb (e, em decorr\u00eancia disso, uma qualquer \u00abteoria da sociedade\u00bb) intrinsecamente, ou exclusivamente, \u00aboptimistas\u00bb.<br \/>\nTodavia, este nosso \u00abrelativo pessimismo\u00bb \u00e9 (ou pretende ser) apenas, como dissemos, um \u00abrealismo da intelig\u00eancia\u00bb: apesar daquela referida maldade e perversidade intr\u00ednsecas do ser humano, n\u00f3s acreditamos, com excep\u00e7\u00e3o dos casos definitivamente patol\u00f3gicos e comprovadamente irrevers\u00edveis, na \u00abrelativa perfectibilidade humana\u00bb.<br \/>\nPor outro lado, porque tamb\u00e9m, no mundo, nem tudo \u00e9 mau; porque afinal \u00abeste\u00bb mundo em que vivemos (e n\u00e3o conhecemos ainda outro\u2026) tamb\u00e9m tem coisas boas; porque, afinal, como o diz o dito popular, \u00aba esperan\u00e7a \u00e9 a \u00faltima a morrer\u00bb; porque h\u00e1 tamb\u00e9m ainda tantos exemplos e evid\u00eancias da \u00abpureza\u00bb e da \u00abexcel\u00eancia\u00bb humanas \u2013 permanece vivo e actuante o que PACHECO PEREIRA queria dizer com um \u00aboptimismo da vontade\u00bb: um optimismo que se quer \u00abcr\u00edtico\u00bb e \u00abrealista\u00bb (relativo e moderado); mas um optimismo que n\u00e3o quer transigir com a passividade abdicante, mas se quer \u00abactivo\u00bb e \u00abcrente\u00bb na possibilidade, apesar de tudo ainda aberta, de combater, pelo \u00abEros\u00bb, o \u00abMal\u00bb. Por exemplo, atrav\u00e9s de reformas sociais (\u00abreformismo cr\u00edtico\u00bb), de reformas de paradigmas civilizacionais e culturais e de sistemas normativos e pol\u00edticos: a \u00abluta pelo Direito\u00bb (IHERING), por exemplo, e a \u00abM\u00e9tapol\u00edtica\u00bb (HAYEK) como \u00abconversa\u00e7\u00e3o com a humanidade\u00bb (RICHARD RORTY).<br \/>\nPonto \u00e9 que, em n\u00f3s pr\u00f3prios, aquele \u00abpessimismo (ou realismo) da intelig\u00eancia\u00bb n\u00e3o contamine irreversivelmente o referido \u00aboptimismo da vontade\u00bb e que este possa permanecer regenerado e \u00edntegro.<\/p>\n<p align=\"justify\">&nbsp;<\/p>\n<p align=\"justify\"><strong>Coimbra, Agosto de 2007.<\/strong><\/p>\n<p align=\"justify\">&nbsp;<\/p>\n<p align=\"justify\"><strong>Virg\u00edlio de Jesus Miranda Carvalho.<\/strong><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 \u00abnatureza humana comum e universal\u00bb, entendida como uma \u00abconstitui\u00e7\u00e3o ontol\u00f3gico-fundamental\u00bb do ser humano (MARTIN HEIDEGGER) \u2013 e bem assim, em rela\u00e7\u00e3o tamb\u00e9m ao \u00abmundo\u00bb em que o homem existe e vive, pois que uma certa \u00abauto-compreens\u00e3o\u00bb n\u00e3o est\u00e1 em absoluto desligada de uma certa \u00abpr\u00e9-compreens\u00e3o\u00bb do pr\u00f3prio \u00abmundo\u00bb, como o seu \u00abhorizonte\u00bb, [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[1],"tags":[],"class_list":["post-19","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-uncategorized"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/umjurista.aovento.com\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/19","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/umjurista.aovento.com\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/umjurista.aovento.com\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/umjurista.aovento.com\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/umjurista.aovento.com\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcomments&post=19"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/umjurista.aovento.com\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/19\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":82,"href":"https:\/\/umjurista.aovento.com\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/19\/revisions\/82"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/umjurista.aovento.com\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fmedia&parent=19"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/umjurista.aovento.com\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcategories&post=19"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/umjurista.aovento.com\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Ftags&post=19"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}